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Maurício
Perondi
Desde o ano de 1997, quando iniciei
minha trajetória na PJE, como animador de grupo de jovens e, depois em 2001,
quando iniciei a assessoria de grupos, já transcorreram vários anos, onde pude
vivenciar inúmeras experiências de formação, de ação, de espiritualidade,
enfim, de vida pastoral. Neste período assessorei grupos de jovens em escolas
privadas e públicas, participei de coordenações regionais e nacionais, tanto da
PJE como das Pastorais da Juventude.
Neste tempo, a experiência pastoral
foi marcante e determinante para a construção da minha identidade e para a
fundamentação das opções que hoje orientam a minha vida. Muito do que sou e
faço hoje, tem base no que eu vivi na pastoral. Muito do que eu aprendi, também
foi a partir das experiências que tive nas Pastorais da Juventude. Neste
momento, em que estou deixando a Assessoria Nacional da PJE, quero compartilhar
alguns aprendizados que tive neste período.
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Protagonismo dos Jovens
Uma
das primeiras coisas que aprendi com as pastorais é o que significa
protagonismo juvenil na prática. Comecei a ver que eram os jovens que
coordenavam as reuniões, que secretariavam os encontros, que organizavam a
maior parte das atividades. Os assessores sempre estavam presentes, mas os
jovens tinham espaço para tomarem as iniciativas e serem protagonistas.
Opção Preferencial pelos Pobres
A
opção pelos pobres/pelos excluídos é uma das principais opções das pastorais.
Apesar de eu já ter esta opção quando conheci as pastorais, isso se solidificou
quando passei a conhecer mais a pastoral. Hoje em dia, para mim é quase como
que automático defender e lutar pelos direitos dos que são excluídos. Não
importa em que lugar ou em que situação eu aprendi a ficar sempre do lado de
quem é o mais necessitado
Afetividade/Valorização das Pessoas/Amizade
Aprendi
que as amizades e as relações interpessoais na pastoral são muito marcantes. Na
pastoral se constroem relações profundas e duradouras, independente das distâncias
e das diferenças. Existe uma valorização do humano que cada pessoa carrega,
fazendo com que as relações afetivas sejam construídas de modo autêntico e
transparente. Muitas pessoas de fora da pastoral têm dificuldade em entender a
gratuidade que existe nas relações estabelecidas no seu interior. Num mundo
onde as relações são marcadas pela trocas ou pelos interesses em tirar proveito
pessoal, aprendi que a gratuidade é o segredo para a valorização dos amigos que
fazemos e das pessoas com as quais nos relacionamos.
O que é mística
Num
dos primeiros encontros entre grupos de jovens em que participei, ao se
apresentar as características da PJE, alguns jovens entraram com um cartaz onde
dizia “Mística da PJE”. Naquele encontro foi explicado o que era, mas eu não
entendi. Com o passar do tempo, a partir da vivência, eu compreendi que a
mística revela o modo de ser e der agir da PJE, que está fundamentado na
proposta de um libertador, Jesus Cristo. Compreendi o significado através da
prática, não através da teoria. Aprendi que a mística é o que alimenta, é o que
diferencia a pastoral de outro grupo de jovens que também vivencia processos
coletivos. Aprendi que a mística não é repassada de um para o outro, nem
adquirida através de leituras ou cursos, ela é internalizada por quem se propõe
a fazer a experiência.
Jovens e assessores que conhecem
outras realidades crescem mais
Neste
tempo em que estive na pastoral aprendi que jovens e assessores que conhecem
outros grupos e outras realidades crescem mais, ampliam seus horizontes e tem
maior possibilidade de serem militantes engajados. Em muitas ocasiões ouvi
diversas desculpas, principalmente dos assessores, para não se participar de
encontros com outros grupos, de atividades regionais ou até nacionais. Tais pessoas
perdem a oportunidade de crescerem e de ampliarem o seu horizonte de
possibilidades.
Método: Ver – Julgar – Agir
Durante
este período na pastoral aprendi a usar o método Ver-Julgar-Agir. Conforme é
citado no Marco Referencial da PJE, o método é mais do que uma ferramenta, ele
é um modo de vida. Aprendi a usá-lo em diversas situações da minha vida, sempre
na perspectiva de olhar a realidade, julgá-la a partir dos referenciais que
orientam a minha vida para depois agir para transformar determinada realidade.
Organização
Aprendi
que a organização é uma das melhores formas de enfrentarmos os desafios e
lutarmos contra as injustiças que combatemos. Atualmente, uma das grandes
dificuldades que se tem é manter as organizações e as estruturas coletivas. Parece
que cada pessoa e cada instituição tende a pensar em si e nos seus membros. É
difícil encontrar pessoas e instituições que se dispõem a integrarem
organizações maiores para poder ter uma atuação em conjunto. Por isso, no mundo
de hoje, propor organização coletiva é “remar contra a maré”. Com isso, aprendi
que se quisermos maior impacto em nossas ações precisamos de uma organização
conjunta que dê unidade à nossa luta.
Assessoria/Acompanhamento
Aprendi
que a presença de assessores adultos que façam o acompanhamento dos jovens é
necessária e também desejada pelos mesmos. Os jovens querem o seu espaço de
atuação e de protagonismo, mas também querem e precisam de apoio de assessores
comprometidos que lhes dê suporte, que estejam ao seu lado nas crises, que
acompanhem seu projeto de vida. Aprendi também que a assessoria é mais do que
uma função, é um ministério, que deve ser assumido com dedicação, amor e
gratuidade. Os jovens e os demais assessores percebem quando alguém desenvolve
o seu papel apenas como um trabalho, de uma forma burocrática. O assessor
precisa ter tempo, precisa estar junto com os jovens, tanto, nos momentos
difíceis, como também nas festas e alegrias.
Ter um horizonte: reino, Civilização
do Amor
Aprendi
na pastoral a ter um horizonte, a não pensar apenas em ações isoladas que não
tenham conexão com o mundo que eu desejo ver acontecer. Este horizonte tem
nomes diferentes, mas com um significado muito semelhante: “Outro mundo
possível” (Fórum Social Mundial); “Civilização do Amor” (PJs Latino
Americanas); “Reino de Deus” (anunciado por Jesus Cristo).
Acreditar no jovem como “sacramento da
novidade”
Aprendi
que é preciso acreditar no jovem, nas suas potencialidades, encorajando-o para
que lute por seus sonhos e por seus ideais. Dadas as muitas adversidades que
enfrentam, muitos jovens perdem a confiança em si mesmos e sentem-se incapazes
de sonhar e de ir atrás de seus ideais. O jovem precisa encontrar em algum
momento de sua vida alguém que acredite mais nele do que ele mesmo. Aprendi a
acreditar no potencial dos jovens, pois eles são “sacramentos da novidade”
(Hilário Dick), eles representam a possibilidade de que algo novo surja no
mundo (Hannah Arendt).
Processo de participação e construção
coletiva
Na
pastoral aprendi a construir os processos de modo coletivo e que a participação
de todos os envolvidos é fundamental. Na pastoral não há um que manda e outros
que obedecem, as decisões são tomadas em conjunto e depois de deliberação. Este
processo é mais demorado, porém, tende a ser mais completo e tende a contemplar
dimensões que não seriam consideradas se fosse feito individualmente. Lembro
ainda outro pensamento que diz “sozinho se vai mais rápido, mas junto, se vai
mais longe”.
O que é Processo de Educação na Fé
Aprendi,
depois de muito tempo, um pouco mais sobre o que é o PEF, que é uma sigla muito
usada na pastoral, mas muitas vezes não é suficientemente compreendida. O PEF
representa o caminho que os jovens trilham no seu processo de crescimento e de
amadurecimento pessoal. Ele implica nas etapas pelas quais o jovem percorre e
nas dimensões da formação integral que são trabalhadas no grupo de jovens.
Implica ainda no modo como se concebe o crescimento na fé dos jovens, que é de
forma processual e não instantânea, que é através das diversas relações que ele
estabelece até amadurecer e fazer as suas opções. O PEF não acontece através de
um retiro de um fim de semana ou através da escuta de depoimentos de pessoas
que já fizeram o processo. Ele acontece de modo gradativo, na medida em que o
jovem descobre a si mesmo e descobre a grandeza da transcendência, através de
uma opção pessoal e não através de uma tradição religiosa que lhe foi
repassada.
Projeto de Vida
Aprendi
na pastoral a valorizar o projeto de vida do jovem. O projeto de vida é
diferente dos testes vocacionais que são realizados para que os jovens
“descubram” a sua profissão. Ele ajuda o jovem a pensar sobre a sua história, a
questionar-se sobre si e sobre os demais, a repensar os seus ideais e seus
sonhos, a projetar a sua vida, num projeto compartilhado com outras pessoas. O
projeto de vida do jovem nunca está pronto, mas está em constante construção,
por isso, precisa de apoio e de partilha.
Indignação/coragem
Alegria/Dinamismo
A
alegria e o dinamismo são características quase que intrínsecas da maioria dos
jovens. Aprendi que os jovens fazem barulho, fazem festa com muita facilidade,
riem com maior freqüência e, geralmente, aproveitam mais o momento presente do
que os adultos. Para eles a vida está se descortinando e dentre as muitas
opções que lhes estão à disposição, aproveitam para experimentar novas
possibilidades e realizar novas vivências. Neste aspecto reside grande parte
dos conflitos geracionais, onde os adultos, com muita freqüência, consideram
que os jovens são despreocupados, alienados e arruaceiros, quando na verdade
eles estão interagindo com o mundo de uma forma dinâmica, o que a maioria dos
adultos não entende e não suporta.
Aprendi que os jovens estão numa fase
especial de construir opções
Assim
como os adultos, os jovens vivem processos constantes de construção da sua
identidade. Por isso, aprendi a não querer que o jovem tenha respostas sobre
questões que ele ainda não decidiu e não tem clareza. Isso vale para a
religiosidade, para a política, para a sexualidade, para a profissão, para seus
gostos, etc.
Ser um eterno aprendiz...
Também
aprendi na pastoral que somos seres inacabados, ou seja, somos eternos
aprendizes (lema da Semana do Estudante/2003). Por isso, apesar de ter
aprendido tanto na pastoral, tenho consciência que tenho muito a aprender no
meu modo de ser, de me relacionar e de ver o mundo. Sendo assim, não tenho como
sair da PJE e das Pastorais da Juventude, pois além de elas fazerem parte de
mim, tenho muito a aprender e a contribuir com elas. Tenho consciência de que
nos próximos dois anos não poderei assumir instâncias ou outros processos mais
fixos, porém, de outras formas, não deixarei de contribuir e de aprender com
elas.
Belo Horizonte, 16 de janeiro de
2011.
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