 | PJE: HISTÓRIA E UTOPIA APRESENTAÇÃO Esse subsídio resultou de trabalhos de oficinas dos assessores da PJE em seu TERCEIRO SEMINÁRIO NACIONAL realizado em Sta. Isabel, ES, de 04 a 09 de janeiro de 1990. Reflete o conteúdo dos Cadernos da PJE, a experiência dos assessores e jovens e o desejo de que o Documento da CNBB sobre Educação - então em fase de discussão e 1ª redação - refletisse os anseios, práticas e utopias da PJE a respeito da nova educação, nova escola, o aluno como sujeito e de tudo o que achávamos importante o documento da CNBB trazer. É um subsídio ao mesmo tempo de memória histórica refletindo um trabalho de assessores da PJE num determinado momento e traduz nossa utopia: o que a PJE deseja e pensa para seu campo específico de atuação ainda um sonho a se concretizar. Daí o nome do subsídio "PJE: História e Utopia". Que esse subsídio ajude a ter mais clareza sobre nossa proposta e dê mais força e coragem para realizá-la. Pe. Henrique de Moura Faria Assessor Nacional da PJE AOS SENHORES BISPOS DO BRASIL Provindos de várias regiões do Brasil, assessores da Pastoral de Juventude Estudantil, no 3º Seminário Nacional de assessores da PJE presentes a CNAPJE e a CNPJE, além de aprofundarmos questões relativas ao trabalho pastoral que procuramos desenvolver, alegramo-nos com o fato de o tema central da Assembléia dos Bispos de 1990 ser a educação. Sabemos ainda que um dos temas que preocupa a Igreja na América Latina, preparando-se para a 4ª Assembléia do CELAM em Santo Domingo, seja a questão da cultura e da modernidade. Em vista destes dois eventos não podemos nos omitir e encaminharmos algumas considerações e sugestões aos nossos pastores. 1. O QUE É A PASTORAL DE JUVENTUDE ESTUDANTIL? Todos nós trabalhamos nesta pastoral. A Pastoral da Juventude Estudantil (PJE), visa evangelizar os jovens estudantes de 1º.e 2º.graus, em seu meio, evangelizando as organizações estudantis e escolares e motivando e assessorando a participação responsável no movimento estudantil (Grêmios, UMES e UBES). É uma pastoral feita com, por e para estudantes, com assessoria adequada. O jovem estudante ‚ o protagonista desta pastoral, sujeito da história e de sua caminhada, da sua própria evangelização e da evangelização no seu meio, em conjunto com a pastoral educacional e orgânica. A PJE visa a formação integral do estudante cristão, levando em conta a relação fé-vida. A opção da PJE é pelos jovens empobrecidos e segue a linha e a metodologia de uma Igreja comunidade, em comunhão com seus pastores numa perspectiva profética no meio estudantil. É o estudante cristão comprometido com o seu meio, buscando a transformação da educação através de uma ação participativa e responsável nos movimentos estudantis, visando a transformação da sociedade e o início do Reino aqui e agora. 2. A EDUCAÇÃO QUE BUSCAMOS A PJE busca uma educação cristã através do amadurecimento de uma fé engajada na transformação da realidade. Ela propõe por isso: a) uma educação democrática a qual todos tenham acesso, principalmente as classes populares, garantida pelo Poder Público; b) uma educação na qual o estudante se torne responsável e sujeito de sua educação e de sua história; c) uma educação que respeite as diversas etapas de desenvolvimento afetivo-social-pol¡tico e religioso; d) uma educação que seja participativa tendo um projeto que seja elaborado pelos integrantes da comunidade educacional: família, estudantes, professores, funcionários e direção, supondo a capacidade de vivenciar os conflitos inerentes ao processo; e) uma educação que corresponda às necessidades dos estudantes, que leve em conta a realidade local e nacional, como metodologia, currículo e a organização condizente com isso; f) uma educação que privilegie a cultura popular, seus valores, suas origens e suas tradições; g) uma educação crítica face à massificação e alienação da ideologia dominante que possibilite experiências de cidadania visando um autêntico amadurecimento político; h) uma educação, finalmente, que desenvolva valores como justiça, igualdade, solidariedade, participação, democracia, respeito à diversidade, rejeitando a competição, o individualismo e a opressão. 3. QUESTÕES QUE NÃO PODEM FALTAR NO DOCUMENTO BASE DA ASSEMBLÉIA DOS SENHORES BISPOS Estamos participando de um momento de profunda crise da educação no Brasil, mais do que isso, constatamos grandes fracassos. Diante disso, apresentamos as seguintes propostas e questionamentos: 1) A educação é todo um processo de formação da pessoa humana, nas várias fases de seu crescimento e amadurecimento e nas várias circunstâncias de sua vida, de um modo global e integral, abrangendo a totalidade da vida nos seus vários aspectos (o saber, a cultura, a política, o social, o econômico, o afetivo, o simbólico e o religioso) e em suas dimensões, seja intelectual, seja a da afetividade e sexualidade, da ética e da moral. Desta forma, a educação será participativa e os educandos sujeitos de sua própria educação. 2) Os conteúdos de Filosofia e Sociologia reforçariam uma educação libertadora possibilitando a formação de homens e mulheres novos como sujeitos da sociedade. 3) O homem moderno ‚ um homem criativo, que evolui, pesquisa, cria saber, questiona, faz cultura, cria novos valores, como também desumaniza, perde raízes culturais e históricas, inverte valores, entra em crises, desacredita. Ao mesmo tempo que desenvolve sofisticadas tecnologias perde a sensibilidade com o outro. Como Igreja temos que nos perguntar: qual a visão de homem que é desenvolvida e elaborada pela Ciência, pela Cultura e pela sociedade atual? Que valores são promovidos e que afinidade têm com o Evangelho? Que respostas evangélicas damos à modernidade? Como nos relacionamos com as culturas modernas? 4) A educação do povo brasileiro não se limita à escola. A escola tem uma grande tarefa na educação formal e sistemática, na transmissão do saber organizado, ao mesmo tempo que uma grande função ideológica. Apesar de esforços isolados, a escola não contempla a cultura popular. Não há espaço para ela nas salas de aula, nem para o saber do povo, nem leva em consideração a realidade social e econômica, principalmente das classes populares. A escola não é um espaço de vivencia acolhedor, prazeroso, que dê sentido à vida, mas um espaço por demais institucional e disciplinado, obrigatório, que unido a outras causas econômico-sociais, provoca desinteresse, repetência e evasão. A educação informal é que "cria" o homem, tem sentimento, arte, e afetividade, faz história, resgata raízes culturais e arquétipos coletivos, está ligada à vida e à realidade do povo, respeita e valoriza as diferenças e à individualidade. A educação informal é ainda criativa e desperta militância. Cabe então perguntar: qual é o papel da escola na sociedade de hoje? Qual a identidade da escola no meio popular? Como fazer com que todos tenham acesso à escola e que a escola seja de boa qualidade? Que contribuição a educação informal, a educação popular pode dar para "libertar" a escola? 5) A educação formal, escolar, é desenvolvida por trabalhadores, profissionais na educação e como tal devem ser reconhecidos e valorizados, tanto no aspecto da remuneração salarial. Aqui deve ser lembrada a responsabilidade e o dever do poder público quanto ao destino das verbas públicas e investimentos na educação e nossa missão profética, como Igreja de questionar e anunciar frente a realidade e frente ao Poder Público. 6) A Pastoral da Educação é um desafio para a Igreja no sentido de auxiliar o educador cristão a viver sua fé como trabalhador da educação, a fazer uma integração entre a vida da Comunidade e o trabalho profissional e de fazer do seu trabalho profissional um trabalho missionário, de evangelização e de construção do Reino. Todo educador católico, especialmente se tem algum engajamento pastoral comunitário, deve ser um agente e sujeito da pastoral da educação e uma presença da Igreja no mundo da educação. A organização e a reflexão pastoral deve acontecer a partir das instâncias da participação e comunhão eclesial. A pastoral é sempre uma ação da Igreja. O espaço e o universo da nossa ação é a escola ou o mundo da educação. A pastoral da educação é a evangelização da educação com suas instituições, estruturas, organização, instâncias de poder e decisão, conteúdo, metodologia, ideologias... A pastoral é uma militância na fé e da fé no seu meio e na sua realidade. A PJE quer dar sua contribuição ao jovem na evangelização do seu meio específico. 7) A identidade e a missão da Escola Católica deve ser analisada e revista a partir dos desafios da realidade, da situação do povo e da educação no Brasil. A Escola Católica deve ser profeta da educação libertadora e como tal deve anunciar e denunciar pelo seu conteúdo e pela sua prática. O seu conteúdo deve ser resposta aos desafios da realidade. Mas uma resposta EVANGÉLICA, não CAPITALISTA, ser uma escola para todos, principalmente para os empobrecidos e desenvolver sobretudo na organização e na administração práticas democráticas, criando relações igualitárias e fraternas. 8) Frente à urgência da democratização e melhoria da qualidade da educação por um lado e a opção preferencial pelo pobre e pelo jovem de outro, APELAMOS ÀS ESCOLAS CATÓLICAS: a) refletirem sobre a prioridade a ser dada quanto à clientela que usufrui os seus serviços; b) tomarem uma atitude evangélico-profética colocando bens, estruturas e pessoas preferencialmente a serviço do jovem pobre; c) respeitarem não só os espaços de participação da comunidade nas decisões da educação não só os garantidos por lei, mas também outros que garantam a democratização interna da escola. As Escolas Católicas devem ser pioneiras neste aspecto, frente à proposta de Cristo e de Puebla. 9) O Ensino Religioso é uma oportunidade de evangelização na escola utilizando-se de um espaço da própria escola, garantido por lei, como forma de trabalhar a dimensão religiosa, ajudando-os a despertar para a fé e encontrar formas para sua expressão; a descobrir a Comunidade Eclesial. É importante não só lutar para que o ensino religioso seja incluído no currículo escolar e que seja dado em todas as escolas, como também despertar e motivar professores para essa missão e dar a devida e necessária formação específica para enfrentar com discernimento, equilíbrio e coragem os muitos desafios deste trabalho, com características que lhe são próprias. 4. OUTRAS SUGESTÕES Considerando que a Pastoral é a ação organizada da Igreja e que a educação abrange todas as situações e etapas da vida, sugerimos que a Igreja no Brasil e na América Latina promova e incentive a Pastoral da Educação. Que se desencadeie, por parte da Igreja, uma mobilização em nível de nacional e de América Latina para criar uma consciência da necessidade de um ensino de boa qualidade para todos e adaptado para cada realidade, assim como ela se manifestou, se manifestará diante de situações como as eleições, a reforma agrária, a violência, etc. Sugerimos que a Igreja participe da luta por uma política Educacional de tal forma que a Educação se volte para os interesses Populares e não para os interesses da produção capitalista e multinacional, a fim de que proporcione ao estudante condições para que, terminado seu curso, possa encontrar campo de trabalho em atividades que contribuam para o desenvolvimento social. Recomendamos que a Igreja, através da AEC, respeite e faça respeitar os espaços conquistados por lei para estudantes, professores, como o direito de greve, conselho deliberativo, grêmios estudantis e a participação nos demais organismos da sociedade civil. Mais ainda que as Escolas Católicas possam abrir novos e maiores espaços de participação. Que a educação respeite, preserve e resgate as várias expressões da cultura brasileira, sobretudo a indígena e negra. Que por ocasião dos 500 anos da presença da Igreja na América Latina se divulgue, numa linguagem popular, uma reflexão sobre a verdadeira história da evangelização e colonização. Sugerimos ainda, que a Igreja valorize mais a educação popular no Brasil e em toda a América Latina com investimentos em pessoas dispostas a contribuir na organização e participação do povo. Solicitamos, finalmente, apoio e incentivo à PASTORAL DE JUVENTUDE ESTUDANTIL, dos irmãos Bispos e do conjunto da Igreja, como forma de concretizar a opção da Igreja pelos jovens, de despertar nos jovens estudantes a consciência e a alegria de ser Igreja e o espírito missionário. Que o Espírito Santo fortaleça a caminhada pastoral de toda a Igreja e nos ajude a sermos fiéis ao Evangelho. Santa Izabel - ES, 9 de Janeiro de 1990. |