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A concepção moderna de natureza: da natureza-divina à natureza técnica
Caio César Andrade Bezerra da Silva1
Resumo
O presente artigo é uma tentativa de percorrer criticamente a evolução do conceito de natureza a partir do século XV, no qual já começam a ser eboçadas as transformações profundas na visão cósmica do Ocidente, bem como suas concepções dominantes de homem e natureza, ocasionadas em razão do advento da ciência moderna. Acreditamos que a compreensão destas transformações é fundamental para o entendimento das _base_s que sustentam o mundo atual, principalmente no concernente à política, à técnica e à cultura de nossa sociedade.
Palavras-chave: natureza; conceito; ciência; técnica; mecânica.
1 – Caio César Andrade Bezerra da Silva é aluno de graduação em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e bolsista do Núcleo de Estudos de Geografia Fluminense. O modo como hoje concebemos a natureza tem sua origem mais remota na revolução intruduzida por Nicolau Copérnico (1473-1543), no entendimento do sistema solar via teoria heliocêntrica. Copérnico rompe, no albor do Renascimento, com a concepção de mundo da teoria geocêntrica de Aristóteles-Ptolomeu, originada na Antiguidade greco-romana e até então vigente. Para uma sociedade acostumada a estar no centro do “universo”- hoje sabe-se que o universo não se reduz ao sistema solar -, e não haveria outra posição mais natural para a criação mais importante de Deus, descobrir que o paradigma no qual sempre se acreditou é falso, já que o Sol é agora o astro central, significou, sem dúvida, uma enorme reviravolta nas estruturas da Europa recém-chegada ao século XVI. Destarte, são lançadas as _base_s para a reorganização espiritual e material das sociedades. A teoria heliocêntrica dá início à astronomia moderna, _base_ada na mecânica celeste, e, por meio desta, à física moderna, _base_ada na mecânica dos corpos da superfície terrestre. A _base_ da passagem da teoria geocêntrica para a teoria heliocêntrica, e da passagem desta para o âmbito do nascimento da ciência moderna, é a criação do método experimental por Francis Bacon (1561-1626) e Galileu Galilei (1564-1642). A partir daí a ciência moderna dá grandes passos à luz do rigor e da objetividade, a exemplo da descoberta de Kepler (1571-1630) de que a órbita dos astros se dava de forma elíptica e não circular como acreditava-se devido à noção aristotélica de um universo estruturado em círculos concêntricos, atingindo também a visão hegemônica Igreja em sua teoria de mundo-Deus, já que a perfeição era representada na imagem da esfera. Aplicando os novos conhecimentos da astronomia, reforçados por seu famoso invento, a luneta, ao mundo dos pequenos corpos da superfície da Terra, Galileu verifica que estes são regidos, também, sob as mesmas leis mecânicas. Por outro lado, o golpe final na idéia de natureza-divina é confirmado por Descartes (1596-1650), ao fundar a compreensão do comportamento dos fenômenos na geometrização do mundo, fornecendo a linguagem uniforme de uma concepção físico-matemática de mundo em gestação, e, ao criar a matemática moderna pela fusão de aritmética, álgebra e geometria, fornecendo aos cientistas a arma apropriada para o método experimental. No século XVII este processo se completa com Isaac Newton (1642-1727), uma vez que a unidade físico-matemática de mundo agora se explicita por intermédio do conteúdo de uma lei única regendo todos os corpos em todo o universo: a lei da gravidade. A natureza está efetivamente dessacralizada. Ela agora é regida por uma lei natural e intrínseca a ela, e não mais pela ação de impulsos externos. A conjutura aponta, cada vez mais para a desvalorização de qualquer discurso _meta_físico, pois a alma, a verdade, a justiça, o ser, entre outras temáticas que estão além da natureza-matemático-mecânica não são mensuráveis nem verificáveis. A natureza foi reduzida a um conjunto de entes geométricos cognoscíveis e matematizáveis. Ela é, segundo o paradigma moderno, a soma dos corpos dispersos sobre a superfície terrestre, entre os quais as relações existentes são meramente matemáticas. Desta forma, a natureza pode ser conhecida e controlada. Nasce a natureza preditiva. Galileu assim a resume:
A natureza está contida neste vasto livro, que se mantém permanentemente aberto perante o Universo; mas não pode ser lido antes de termos aprendido a linguagem nele usada e nos familiarizarmos com os caracteres em que está escrito. Está escrito em linguagem matemática, e as letras são portanto, triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem a compreensão das quais é humanamente impossível compreender uma única palavra. (Galilei, apud Moreira, 2006, p. 57).
Desta forma é selada a separação do mundo em o que está e o que não está “escrito na linguagem matemática”. Assim, surge a noção de dicotomia entre homem e natureza. O homem, enquanto corpo físico que, portanto, ocupa lugar no espaço não pode ser expulso da natureza, afinal também está submetido à lei da gravidade. Não obstante, o homem transcende à matéria. Ele também é uma mente, um espírito, uma alma, logo instaura-se, em certa medida, um isolamento entre homem e natureza através da negação da _meta_física pela ciência. Essa é uma das contradições sobre as quais se funda o paradigma da modernidade. O homem que já fora expulso do paraíso por Deus agora é expurgado da natureza. Destarte, o homem passa a ser assunto da _meta_física e a natureza assunto da ciência. O corpo do homem é parte da natureza, sua mente não. A nova natureza, essa grande máquina à qual a ciência visa controlar em benefício do homem, apresenta o próprio homem como mais uma peça da engrenagem, no sentido de produzir, de retirar da natureza, trasformar e obter vantagens econômicas. Evidencia-se o vínculo da ciência com o projeto histórico de construção técnica do capitalismo. Na revolução industrial torna-se mais claro o compromentimento da ciência com a exploração da natureza em vista do “progresso”. Eis a fórmula do avanço rumo à sociedade tecnológica: uma natureza encarada como inventário de recursos e um homem concebido a partir de sua força-de-trabalho. Sendo assim, não se pode mais conceber o avanço da ciência e da técnica dissociados do avanço das relações de produção. E à medida em que se promovem importantes transformações na infra-estrutura das sociedades a partir dos impactos causados pela industrialização, torna-se necessário adequar a superestrutura, isto é, a ordem político-jurídica, ao novo paradigma. Esta adequação se dá por meio do estado keynesiano, em um primeiro momento, até o estado neoliberal, verificado na atualidade. No contexto das transformações no âmbito infra-estrutural, a primeira revolução industrial, ocorrida principalmente na Inglaterra no século XVIII, entre 1780 e 1830, expressa o triunfo do paradigma físico, representado na figura das máquinas da indústria têxtil, da principal fonte de energia da época, o carvão, e do sistema de transportes, composto pelas ferrovias, além da navegação. A segunda revolução industrial, iniciada nos Estados Unidos por volta de 1870, expressa, como não poderia deixar de expressar, significativos inovações técnico-científicas, com uma diferença fundamental: a química, e não mais a física, como carro-chefe. Isto, contudo, não significa o abandono do paradigma físico-matemático, mas sim sua adequação às novas necessidades do capital. A indústrias _meta_lúrgica, eletromecânica e petroquímica exprimem o caráter dos avanços obtidos, aliadas às novas fontes de energia, a eletricidade e o petróleo, e ao principal produto e meio de transporte do momento, o automóvel. Nesse ínterim, o conceito de natureza até então vigente, um conceito meramente físico-matemático, não seria mais suficiente para acompanhar a dinâmica da sociedade em evolução, uma vez que não abarca a lei da conservação de energia, o eixo da nova concepção que nem por isso descartava as leis mecânicas. Todo esse caminho percorrido lança as _base_s para uma terceira revolução industrial, esta, porém, não mais uma revolução de caráter técnico-científico, meramente, e sim uma revolução introdutória à era técnico-científico-informacional, que caracteriza o capitalismo globalizado. A _base_ técnica deste período é assentada sobre o microcomputador. E este é o grande responsável pela consolidação do avanço integrado entre tecnologia e comunicação. Daí a impossibilidade de se conceber, na atualidade, a tecnologia dissociada da informação: nenhum computador é vendido sem fax modem no seu conjunto. Já a _base_ científica desta nova fase é, sem dúvida, advinda da biologia. Todavia, mais uma vez, isto não representa o abandono do paradigma físico-matemático, nem tampouco do modelo químico de natureza. A bioengenharia, apesar de ser a grande novidade da virada do século XX para o século XXI, não funciona de maneira estanque às demais ciências. Pelo contrário, ela estabelece uma relação de interdependência entre as mesmas. A natureza que na primeira revolução industrial era vista sob o prisma animal-vegetal, assiste à inauguração de uma era geológica pela segunda revolução industrial, dada a importância dos minerais e dos combustíveis fósseis neste período, e, com o avento da engenharia genética, na terceira revolução industrial, passa a ser vista agora sob o ponto de vista da biodiversidade. O percurso realizado entre as concepções de natureza desde a idade média até à época do capitalismo avançado nos permite perceber que ora a natureza é vista sob pontos de vista fragmentares, ora ela é concebida por uma visão de caráter holístico. Torna-se fundamental, na realidade atual, a difusão da compreensão holística da natureza na perspectiva ecológica, no sentido de se combater a visão hegemônica de natureza enquanto antro de recursos, uma natureza subordinada à economia. Desconsiderar a síntese da vida significa um entrave ao desenvolvimento da técnica e da própria ciência em vista de uma estratégia de longo prazo.
*Grande Parte do texto está _base_ado no livro "Para Onde Vai O Pensamento Geográfico" de Ruy Moreira.
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